December 2, 2016 | Posted in:Artigos & Opiniões

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Se é verdade que hoje em dia assistimos a eventos, em terras ditas civilizadas, que nos fazem soltar um “como é que isto ainda acontece em pleno seculo 21?”, no entanto não é um desses eventos que me traz hoje aqui, mas sim boas noticias, e para surpresas de todos, das ditas terras do terceiro mundo.

Países como o Iémen, com tradições enraizadas e arcaicas, continuam a permitir o casamento forçado de meninas de tenra idade. A maior parte destas historias desenrola-se em termos muito semelhantes: uma menina em idade muito jovem é obrigada a casar com um homem muito mais velho que ela em troca de um dote oferecido a sua família, não há amor nem muito menos consentimento, este homem força a pobre rapariga a ter relações sexuais e se esta se recusar ou tiver algum comportamento indigno de esposa este espanca-a, e por inacreditável que pareça à luz da lei tudo isto é legal, como marido tem o direito de fazer o que bem entender com a sua nova esposa, a sua propriedade.

Pois bem a história de Nujood, de quem vós venho falar hoje, tem todos os contornos para ter um final (in)feliz – dependendo da perspetiva, se da nossa se do marido -  tudo começou no dia em que o seu pai prometeu Nujood em casamento a um homem três vezes mais velho quando esta tinha apenas 10 anos de idade, em troca de um dote, negociações feitas Nujood foi entregue ao marido, que a violou e espancou.

E é aqui que a história tem uma reviravolta, Nujood inconformada numa visita a casa dos pais queixou-se a mãe dos maus tratos do marido que lhe respondeu “Ele tem direito a isso tudo”.

Nujood decidida a mudar o seu destino fugiu, não para casa dos pais, mas sim para um tribunal onde pediu ao juiz que lhe concedesse o divorcio.

Uma situação verdadeiramente inédita no Iémen, não é novidade que meninas em tenra idade sejam “vendidas” para casar, mas é novidade que estas se apresentem em tribunal a pedir o divorcio.

O juiz com um caso destes entre mãos, sem saber muito bem o que fazer decretou o divorcio.

Em troca de cerca de cem euros, o divórcio foi-lhe concedido e hoje a pequena é uma adolescente livre do marido. Mas ainda presa à figura paterna.

E assim se desenrola esta historia, um verdadeiro marco pela igualdade de género, pelo fim do casamento civil e um exemplo a seguir ao nível dos direitos humanos internacionais.

Mas as surpresas não acabam aqui em 2008, esta historia inspirou um livro intitulado “Nojood: 10 anos, divorciada”. Nesse mesmo ano, a menina e a advogada que a defendeu ao longo do processo foram agraciadas com o prémio Glamour Women of the Year, em Nova Iorque.

A história cativou leitores por toda a parte e atraiu as atenções para o problema ainda bastante real do casamento infantil. O livro – que se tornou num best-seller – inspirou depois um filme com o mesmo nome, que acaba de ser indicado para candidato aos Óscares 2017, na categoria de Melhor Filme Língua Estrangeira.

Este é um momento histórico, uma vez que é a primeira vez que o Iémen faz uma candidatura do género à Academia, mas também para Khadija al-Salami, a realizadora, conhecida pelo seu trabalho documental, para quem o filme “Nojood: 10 anos, divorciada” foi a sua primeira incursão neste género de cinema.

Se é verdade que tanto rapazes como raparigas por todo o mundo são forçados ao casamento infantil, a verdade é que este é principalmente um problema do género feminino. Estas crianças são casadas à força, sujeitas a abusos sexuais, violência doméstica e acabam encurraladas numa vida de dependência total, sem que nenhuma escolha lhes seja permitida.

Os dados que nos são apresentados são verdadeiramente assustadores: segundo a Unicef mais de 700 mil mulheres foram forçadas a casar enquanto crianças, e de acordo com a informação recolhidas pelas organizações que formam a Girls not Brides em cada ano 15 milhões de raparigas casam antes dos 18 anos, ou seja 28 por minuto, 1 a cada 2 segundos.

O caminho a percorrer é longo, mas penso que isto seja um verdadeiro grito pela parte de países como o Iémen, que anseiam o fim da desigualdade de género, da desvalorização feminina, da subjugação de um sexo perante o outro de forma inquestionável, o desejo de uma grande mudança de mentalidades.

Fonte e inspiração: jornal Expresso

Rosa Azevedo

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