December 2, 2016 | Posted in:Artigos & Opiniões

National Resistance Army girl soldier po

 

Relatórios como o da organização não governamental “Save the Children” estimam que 300.000 crianças com idade inferior a 18 anos lutam em conflitos armados em mais de 30 países. Na guerra civil de Serra Leoa (1991-2001), 80% dos soldados tinham idades entre os sete e os quinze anos; no conflito da Libéria (1989 -2003), 70% dos combatentes eram crianças (não só ao serviço dos grupos rebeldes mas também no exército do próprio governo). Normalmente estas crianças são raptadas ou recrutadas durante um ataque. No entanto, verifica-se também que, uma minoria “alista-se” por motivos de pobreza, vingança ou mesmo como forma de adquirir respeito e poder.

Até aqui temos constatado factos dos quais estamos todos mais ou menos ocorrentes. Aquilo que a maior parte das pessoas não sabe (e que não deixa também ele de ser um facto) é que destas 300.000 crianças-soldado, 40% são do sexo femino. O que nos leva a concluir que aproximadamente 120.000 das crianças-soldado são raparigas que todavia passam despercebidas! Engane-se quem associa este número exclusivamente para fins de escopo sexual, um estudo de 2002 concluiu que mais de metade das raparigas entrevistadas definiram a sua atividade de “soldada” como sendo a sua principal tarefa. Obviamente, é sabido que, para além desta sua função primária, estas crianças lidam diariamente (e em maior percentagem que o sexo masculino) com agressões sexuais, violação, prostituição, mutilação, doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas. E porquê? Porquê escolher raparigas que têm como função principal, nos grupos armados, a de combater? Uma criança-soldado rapaz (como aqueles que já dispõe), por si só, não satisfaria essa função de forma mais eficaz e competente? Como pode ser uma menina relevante neste contexto? O que é dito é que as crianças do sexo feminino são normalmente mais obedientes, manipuláveis e porque “ninguém suspeita de uma menina” – elas podem mais facilmente infiltrar-se e transportar armas, droga e dinheiro.

Um outro relatório desta mesma organização, “Forgotten Casualties of War: Girls in Armed Conflict”, datado de 2005, reporta que a  maior parte das meninas que conseguem fugir destes conflitos armados (ou aquando do seu término), ao tentar a reintegração no seio da sua comunidade, deparam-se com a rejeição e são habitualmente classificadas como obscenas, “impuras” e culpadas por destruir a honra e o bom nome da sua família e das suas origens. A rejeição é ainda mais notória quando regressam grávidas ou com filhos fruto de violação.

Rejeitadas e completamente desamparadas, a maior parte destas crianças acaba por envergar o caminho da prostituição ou mesmo até, em certos casos, regressar ao soldado-abusador como forma a garantir a sua sobrevivência e a dos que lhe são dependentes.

A misoginia e negligência de ambas as partes – num lado são objetificadas como armas de guerra e instrumentos sexuais, do outro lado, são desprezadas e repudiadas -, tem como resultado uma maior percentagem de suicídios de raparigas soldados quando comparadas a crianças-soldado do sexo masculino (mais de duas vezes superior).

Apesar dos esforços das Nações Unidas e da Unicef em implementar os DDR programs “Disarmament, Demobilization, and Reintegration” estes não se têm revelado suficientes. Verifica-se que as iniciativas levadas a cabo pela DDR são fracamente financiadas, incapazes de dar resposta a todas as necessidades médicas e psicológicas das raparigas e mostram-se insuficientes no combate à misoginia de que são alvo.

É claro que assegurar a liberdade destas raparigas-soldados é uma tarefa difícil pois muitas delas estão de certa forma presas aos comandantes militares ou soldados que as vêm como “esposas”. Outras vezes são elas próprias que recusam os programas de reintegração de forma a evitar o rótulo de “criança-soldado”. De todas estas condicionantes, resulta que muitas das raparigas acabam por ficar por conta própria, sem qualquer tipo de ajuda.

Com este texto, não se pretendeu, de todo, menosprezar as condições de um soldado-criança rapaz face às de uma criança-soldado rapariga. Ambas são repugnáveis e aterradoras e decerto, em ambos os casos, causadoras de danos irreparáveis. O que se pretendeu, foi dar voz aos 40% destas crianças que passam, neste contexto, mais facilmente despercebidas e esquecidas. Quando falamos em crianças-soldado, ou mesmo quando pesquisamos sobre esta temática, somos confrontados, com imagens de rapazes a segurar armas ostensivamente, por exemplo. Admiramos-mos, no entanto, quando descobrimos que aproximadamente metade, são raparigas, sujeitas como descrito supra, a situações por vezes ainda mais ainda mais precárias e expostas a uma zona cinzenta de desproteção.

Raquel Matos

Be the first to comment.

Leave a Reply

*



You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>