December 2, 2016 | Posted in:Artigos & Opiniões

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Por vezes é difícil traduzir para palavras tudo o que vivemos e experienciamos, eu, tal como imagino todos que fizeram algum tipo de voluntariado, vivemos uma experiência muito dificilmente explicada por palavras. Em 2015 fiz voluntariado na Bielorrússia. Começo por falar de pequenas curiosidades do país, inicialmente quando disse que ia, muitas pessoas não distinguiam a Bielorrússia da Rússia e recebia com frequência mensagens a perguntar “Como vai isso na Rússia?”. Estas confusões para quem não está familiarizo com o leste europeu, acabam por pesar sobre os bielorussos enquanto sociedade, reparei nisso porque os primeiros pedidos que recebi foi para nunca os chamar de Russos.

O mais difícil em relatar esta experiência acaba por ser a impossibilidade de fugir a realidade política que o país vive. A Bielorrússia, muitas vezes chamada “a última ditadura da Europa” tem tanto de charme como tem de restrições. Ao início acaba por nos incutir um medo a quem não tem por hábito ter uma liberdade de expressão limitada e vigiada. De repente ter cuidado com coisas que consideramos banais, como escrever no Facebook ou tirar fotos onde queremos, torna-se em algo que exige alguma cautela.

Uma das minhas preocupações era sobre como falar com as pessoas acerca do país sem ter uma posição de estereótipo. Entre muitos que “apoiavam” a ditadura, também conheci diversos jovens que tinham participado e até tinham sido presos por protestar contra o regime (Clapping Protest,2011). Lidei diariamente com jovens que me diziam que por mais que amassem o seu país, não viam lá um futuro e se tivessem escolha optavam por emigrar devido as restrições impostas pelo regime.

Receio ter dado uma visão muito sombria do país que me acolheu e recebeu tão bem. E não pretendo de forma alguma que isso reflita sobre as pessoas e a cultura em si. Porém, quando penso na minha experiência que na sua totalidade foi positiva, é difícil ignorar os choques iniciais. Pelas políticas instaladas (ainda me lembro do arrepio que senti quando me disseram que ainda existia a pena de morte), pela economia fragilizada (o país onde qualquer um é milionário, ex. €60 = 1 milhão de rublos bielorrussos) e pela presença constante militar que encontramos em Minsk. O mais curioso, é que a dada altura, damos por nós a ter um comportamento que acaba por ser sistematizado, mas que se torna indiferente, como se aquelas restrições se tornassem “normais” para mim.

Provavelmente para contar tudo o que vivi na Bielorrússia precisaria de um livro inteiro, como não o tenho, acabo por salientar dois pontos. O primeiro foi que aprendi a dar imenso valor a liberdade de expressão de forma que nunca pensei possível. O segundo é que conhecer a Bielorrússia é indispensável. Pelas pessoas, pela diversidade cultura e para os amantes da história contemporânea, conhecer a Bielorrússia é como entrar no candyland mas da história.

Nélia Catarina Neves

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