Alive inside: quando a música toca a alma

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November 19, 2015 | Posted in Artigos & Opiniões, Projectos, Sugestões Culturais | By

Alive Inside é um documentário de 2014, onde Dan Cohen, um assistente social norte-americano e fundador da ONG Music and Memory, procura demonstrar o poder da música na recuperação da memória em doentes com problemas mentais, demência ou alzheimer. Ao logo do documentário Dan Cohen mostra a reação de pessoas com demência, pessoas já muito debilitadas e com perdas de memória profundas, conseguem, ouvindo algumas das suas músicas preferidas, recuperar as memorias e emoções que associam ao ouvir a música, permitindo-lhes assim recuperar, pelo menos, um pouco da sua entidade que entretanto se tinha perdido.

Dan Cohen, junta neste documentário neurologistas, músicos e também diretores de lares de idosos e junto explicam a importância dos estímulos exteriores, e sobretudo da música para o retardar da demência e da perda de memória. Este efeito da música, explica-se pela sua ligação profunda entre a música e as emoções, inclusive as mais profundas, e, felizmente, as últimas a desaparecer em doentes de alzheimer. Como tal, Dan, procura mostrar que a música consegue ser mais eficiente do que a medicação anti-psicótica, que é largamente administrada em idosos, sendo que muitas das vezes de forma desadequada e em doses desajustadas.

Apesar de este documentário ser feito na realidade americana onde 1,6 milhões de idosos vivem em lares e onde há cerca de 5,2 milhões têm alzheimer, não nos podemos esquecer que também Portugal têm uma das populações mais envelhecidas da Europa, sendo que 183 mil portugueses sofrem de demência, 130 mil dos quais têm alzheimer.

Por cá ainda são poucas as iniciativas ou projetos musicais desenvolvidos para idosos ou para pessoas com problemas mentais. No entanto é de registar a existência do Festival Nacional da Canção para Pessoas com Deficiência, organizado anualmente pela ARCIL – Associação para a Recuperação de Cidadãos Inadaptados da Lousã. Este festival, que vai já na 6ª edição, apura depois um vencedor que participa no Festival Europeu da Canção para Pessoas com Deficiência Mental.

É certo que a música não cura as pessoas que sofrem de demência ou problemas mentais, mais estimula-as, liga-as à vida por mais tempo, preservando a sua identidade, aumentando a sua qualidade de vida, e sobretudo a sua humanidade. Em suma fá-los e faz-nos mais felizes e mais humanos. Não é o que se quer?

Filipa Rino Almeida

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Voltar a nascer (2012)

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June 29, 2015 | Posted in Artigos & Opiniões, Sugestões Culturais | By

Para quem conhecer o filme ou para quem apenas se ficar pelo trailer esta pode parecer uma escolha improvável. No entanto, o que faz este filme ser interessante é a complexidade causada pela mistura de várias situações e questões fraturantes.

O filme passa-se entre Itália e Sarajevo antes, durante e cerca de 20 anos após a Guerra Civil na Bósnia, acabando por retratar bem o conflito e as suas consequência de uma forma muito forte mas real. Apesar de se centrar bastante nas relações de amor e de amizade entre os seus protagonistas: Gemma inicialmente uma estudante italiana que vai a Sarajevo para investigar para a sua tese onde conhece Diego, um fotografo americano também de passagem por Sarajevo e Gojko, guia turístico de Gemma e natural da cidade. Juntando-se anos mais tarde Aska, uma jovem também ela de Sarajevo, livre, rebelde e amante de música.

É em pleno cenário de guerra que a vida destas personagens se altera drasticamente e que Gemma, depois de descobrir que é infértil, decide que Aska será a sua barriga de aluguer. É ainda durante a guerra que nasce Pietro, o tão desejado filho de Gemma. Cerca de 20 anos depois Gemma, volta a Sarajevo a pedido de Gojko e Pietro é confrontado com a sua origem e com a cidade que o viu nascer mas com a qual nunca se identificou.

Este é um filme que de uma forma bastante intrincada trata o tema dos Direitos Humanos abordando a Guerra Civil na Bósnia, as muitas privações de direitos que nela ocorreram, retratanto o antes e o após a guerra, a questão das barrigas de aluguer e a identidade fragmentada de alguém que é fruto da Guerra, sem a ter vivido.

 Forte, complexo e cativante do princípio ao fim. Vale a pena ver e refletir sobre ele.

Filipa Almeida

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O Jogo da Humanização

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May 30, 2015 | Posted in Artigos & Opiniões, Sugestões Culturais | By

“Nós vamos desvendar um código Nazi indesvendável e ganhar a Guerra.” O mote é este, a Guerra é a II Mundial e grupo é composto por 1 oficial, 1 espião, 1 matemático, 1 campeão de xadrez, 1 matemática e 3 criptologistas. Todos ingleses.

Confesso que dei por mim a pensar de que forma comentaria este filme sem “quebrar o [seu] enigma”. Um filme que só pela história em si (fosse ou não verdadeira – e sendo…) vale a pena ver. Pois no fundo, não há um tema, mas vários, que são abordados de uma forma soberba, num contexto soberbo, com actores soberbos.

Contudo, do ponto de vista humanista, existem 3 tópicos que me saltam à vista e para os quais o filme daria um óptimo trigger de discussão: (1) sacrifício individual em prol de um bem comum; (2) a subvalorização do género feminino no que toca à capacidade intelectual; e (3) o medo e preconceito sexual num dos contextos mais dramático da História. Mas haveria mais, claro… o bulliyng no início do século, o casamento intelectual como um contrato benéfico, a incompreensão e desvalorização dos cientistas e da importância das suas descobertas pela sociedade, entre outros. Mas foquemo-nos nos 3 iniciais e deixo então as perguntas:

- quão extraordinária é esta história sabendo que de facto aconteceu? Muda a nossa visão sobre o que foi a II Guerra Mundial completamente ou nem por isso?
- conseguiríamos nós fazê-lo, durante todo aquele tempo e sacrificando tantas vezes aqueles que mais nos importam?
- que estaríamos nós dispostos a fazer por alguém, que mal conhecemos, por saber do seu valor, quando o Mundo o nega?
- que tipo de génios seríamos se não tivéssemos que guardar segredos altamente condicionantes à nossa participação no acontecimento mais estimulante da nossa vida e da nossa geração?

Deixo-vos, não o “Egnima”, mas o outro jogo, o nosso jogo… o da Humanização.

Inês Lopes

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Os condenados de Shawshank (1994)

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May 1, 2015 | Posted in Artigos & Opiniões, Sugestões Culturais | By

Celebrando-se este mês em Portugal a liberdade achei por bem trazer-vos este que já é um clássico com mais de 20 anos. Porquê? Porque além de continuar bastante actual e é um verdadeiro hino à liberdade.

A acção do filme passa-se numa prisão masculina americana, onde grande parte dos prisioneiros cumpriam penas devido a crimes graves, muito cumpriam prisão perpétua. No entanto, ao contrário do que seria de esperar apesar de toda a severidade e brutalidade implícita a este tipo de locais, este é também um local de solidariedade, amizade e muita humanidade.

Uma vez na prisão iniciam-se três lutas: a luta pela sobrevivência, a luta pela manutenção da sanidade mental, procurando ocupar o corpo e a mente com as mais variadas atividades e a luta para restaurar a liberdade perdida. Este era o dia-a-dia destes prisioneiros. Não parece fácil, pois não? A verdade é que a luta mais difícil é a última, porque passados anos e décadas, os valores e costumes da prisão enraízam-se e é preciso cada vez mais força para continuar a lutar pelo dia em que saíram de Shawshank. Aqui a esperança é uma faca de dois gumes: tanto pode consumir lentamente e comprometer a sanidade mental ou pode ser o foco para o objetivo principal: a liberdade.

E uma vez livre, o que fazer com a liberdade? Para onde ir? Com quem a partilhar? Quem é que quer saber de um ex-prisioneiro condenado por homicídio?

Filipa Almeida

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Medusa(s)

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April 28, 2015 | Posted in Artigos & Opiniões, Projectos, Sugestões Culturais | By

“Nas confusas redes do seu pensamento; prendem-se obscuras medusas”. O verso de Sophia de Mello Breyner Andresen dá o mote de partida e repete-se ao longo da música como uma voz subconsciente em nosso redor.

Medusa, um termo facilmente associado à mitologia grega e conotado de forma negativa, surge como a forma de apresentação do novo single de Capicua. A rapper portuense já nos habituou a letras feministas, desde “Mão Pesada” a “Maria Capaz” e, agora, em parceria com Valete, traz-nos “Medusa”, uma música que se apresenta como um hino de luta e indignação desde o princípio ao fim.

A violação doméstica é o tema que se destaca, aquele que se consegue extrair logo a partir do primeiro momento em que escutamos “Medusa”; os versos são claros e sem rodeios em relação ao que se pretende transmitir. Relatos de mulheres que vivem amedrontadas durante anos a fio sem saberem o que fazer ou em quem confiar. Numa audição mais atenta conseguimos escutar os ecos do assédio sexual, das abordagens públicas devido ao que veste e ao corpo que se tem, bem como dos abusos sexuais.

A figura da medusa surge aqui como uma metáfora para todas as vítimas que, de alguma forma, são culpabilizadas e transformadas em “monstro”, que faz com que acabem por se ver desta forma, levando assim a um ciclo de auto-destruição e de isolamento.

Capicua deixa o grito claro de revolta pela liberdade de expressão, pela liberdade de sermos nós próprios. Pelo dever de denunciar e não de escrutinar a vítima.

Ana Rita Nunes

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Amazing Grace (2006)

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March 25, 2015 | Posted in Artigos & Opiniões, Sugestões Culturais | By

Amazing Grace, um drama histórico na Grã-Bretanha de século 18, com Ioan Gruffudd, e um então desconhecido Benedict Cumberbacth ao leme de uma potente história de ativismo político e mudança de paradigma político, um retrato do que era ser diferente numa sociedade marcada pelo poderio do Império Britânico, cuja prosperidade dependia em grande medida da força escrava que alimentava a sua indústria do açúcar.

O hino Amazing Grace, dá o título ao filme, famoso pelo uso em funerais militares e de estado britânicos, retrata a experiência real de Jonh Newton um traficante de escravos que perante os sofrimentos que os escravos eram submetidos, converteu-se há fé cristã e lutou pelo fim da escravatura, e do seu protegido William Wiberforce o protagonista, que como representante do parlamento britânico foi o primeiro a denunciar os horrores da escravatura, e a iniciar a luta que o filmo descreve.

Numa cruzada que duraria 20 anos, abre o caminho à luta de consciências do grande público através de uma original campanha de marketing, e às lutas legislativas no parlamento para combater os negreiros, numa sociedade conservadora dependente economicamente das facilidades das colónias africanas.

A força de um homem à frente do seu tempo, com ideias revolucionárias sobre proteção de animais, vegetarianismo, e relações amorosas, é o motor e graça, deste filme que consegue de forma subtil ter verdadeiros momentos de entretenimento, com as relações que o protagonista detém com os seus aliados, num ritmo dinâmico cuja seriedade do tema, não o torna refém de um tom pesado, tornado esta obra uma alternativa descomprometida, uma sugestão viável para qualquer altura.

Igor Pereira

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