O eu e (ou)tro

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December 2, 2016 | Posted in Artigos & Opiniões | By

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Em uma das cadeiras que estou a cursar este semestre, a professora passou um filme durante a aula, chamado “No Man’s Land” (Terra de Ninguém), produzido em 2001 por diversos países. O filme retrata o conflito na Bósnia-Herzegovina nos anos 1990 e a atuação das Nações Unidas durante ela. Entretanto, o que mais me chamou atenção não foi o aspecto macroscópico do filme, mas a relação de ódio entre os personagens principais Ciki e Nino.

Ciki, um soldado bósnio, e Nino, soldado sérvio, acabam por ficar presos em uma trincheira, em terras que não pertenciam a nenhum dos lados, daí o nome terra de ninguém. O conflito na Bósnia-Herzegovina marcou uma mudança paradigmática nas guerras, caracterizada por novas dinâmicas que envolveram ataque a civis e limpeza étnica. O ódio inexplicável entre esses dois soldados foi expressivo durante todo o filme. O mais curioso foi assistir cada um deles tentando dizer quem tinha começado a guerra. Nenhum deles tinha certeza. A única certeza era: eles não podiam conviver ou cooperar para saírem da trincheira vivos. A relação era de exclusão, ou um ou outro.

Durante e após o filme, fiquei a me perguntar o porquê de tanto ódio, um ódio sem explicação e sem começo aparente. Isso me fez refletir sobre os conflitos que temos hoje em dia. Seja com o Estado Islâmico no Oriente Médio ou o conflito civil na Somália, parece-me que não podemos viver com o outro sem exclui-lo ou aniquila-lo. É realmente triste não podermos viver enquanto diferentes no mesmo lugar, ainda que sejamos todos seres humanos.

Creio que falta uma capacidade de compreensão que somos seres sociais, precisamos interagir com o mundo nas suas diversas formas, e isso implica relacionar-se com o outro. A alteridade nas relações sociais e internacionais, nesse sentido como uma capacidade de se colocar no lugar do outro e entendê-lo, é importante, porque ela nos permite dialogar e conviver. Seria um sonho utópico imaginar um futuro sem conflitos por conta das diferenças? Espero verdadeiramente que não.

Yasmin Goés

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Guerreiras anónimas

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December 2, 2016 | Posted in Artigos & Opiniões | By

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Relatórios como o da organização não governamental “Save the Children” estimam que 300.000 crianças com idade inferior a 18 anos lutam em conflitos armados em mais de 30 países. Na guerra civil de Serra Leoa (1991-2001), 80% dos soldados tinham idades entre os sete e os quinze anos; no conflito da Libéria (1989 -2003), 70% dos combatentes eram crianças (não só ao serviço dos grupos rebeldes mas também no exército do próprio governo). Normalmente estas crianças são raptadas ou recrutadas durante um ataque. No entanto, verifica-se também que, uma minoria “alista-se” por motivos de pobreza, vingança ou mesmo como forma de adquirir respeito e poder.

Até aqui temos constatado factos dos quais estamos todos mais ou menos ocorrentes. Aquilo que a maior parte das pessoas não sabe (e que não deixa também ele de ser um facto) é que destas 300.000 crianças-soldado, 40% são do sexo femino. O que nos leva a concluir que aproximadamente 120.000 das crianças-soldado são raparigas que todavia passam despercebidas! Engane-se quem associa este número exclusivamente para fins de escopo sexual, um estudo de 2002 concluiu que mais de metade das raparigas entrevistadas definiram a sua atividade de “soldada” como sendo a sua principal tarefa. Obviamente, é sabido que, para além desta sua função primária, estas crianças lidam diariamente (e em maior percentagem que o sexo masculino) com agressões sexuais, violação, prostituição, mutilação, doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas. E porquê? Porquê escolher raparigas que têm como função principal, nos grupos armados, a de combater? Uma criança-soldado rapaz (como aqueles que já dispõe), por si só, não satisfaria essa função de forma mais eficaz e competente? Como pode ser uma menina relevante neste contexto? O que é dito é que as crianças do sexo feminino são normalmente mais obedientes, manipuláveis e porque “ninguém suspeita de uma menina” – elas podem mais facilmente infiltrar-se e transportar armas, droga e dinheiro.

Um outro relatório desta mesma organização, “Forgotten Casualties of War: Girls in Armed Conflict”, datado de 2005, reporta que a  maior parte das meninas que conseguem fugir destes conflitos armados (ou aquando do seu término), ao tentar a reintegração no seio da sua comunidade, deparam-se com a rejeição e são habitualmente classificadas como obscenas, “impuras” e culpadas por destruir a honra e o bom nome da sua família e das suas origens. A rejeição é ainda mais notória quando regressam grávidas ou com filhos fruto de violação.

Rejeitadas e completamente desamparadas, a maior parte destas crianças acaba por envergar o caminho da prostituição ou mesmo até, em certos casos, regressar ao soldado-abusador como forma a garantir a sua sobrevivência e a dos que lhe são dependentes.

A misoginia e negligência de ambas as partes – num lado são objetificadas como armas de guerra e instrumentos sexuais, do outro lado, são desprezadas e repudiadas -, tem como resultado uma maior percentagem de suicídios de raparigas soldados quando comparadas a crianças-soldado do sexo masculino (mais de duas vezes superior).

Apesar dos esforços das Nações Unidas e da Unicef em implementar os DDR programs “Disarmament, Demobilization, and Reintegration” estes não se têm revelado suficientes. Verifica-se que as iniciativas levadas a cabo pela DDR são fracamente financiadas, incapazes de dar resposta a todas as necessidades médicas e psicológicas das raparigas e mostram-se insuficientes no combate à misoginia de que são alvo.

É claro que assegurar a liberdade destas raparigas-soldados é uma tarefa difícil pois muitas delas estão de certa forma presas aos comandantes militares ou soldados que as vêm como “esposas”. Outras vezes são elas próprias que recusam os programas de reintegração de forma a evitar o rótulo de “criança-soldado”. De todas estas condicionantes, resulta que muitas das raparigas acabam por ficar por conta própria, sem qualquer tipo de ajuda.

Com este texto, não se pretendeu, de todo, menosprezar as condições de um soldado-criança rapaz face às de uma criança-soldado rapariga. Ambas são repugnáveis e aterradoras e decerto, em ambos os casos, causadoras de danos irreparáveis. O que se pretendeu, foi dar voz aos 40% destas crianças que passam, neste contexto, mais facilmente despercebidas e esquecidas. Quando falamos em crianças-soldado, ou mesmo quando pesquisamos sobre esta temática, somos confrontados, com imagens de rapazes a segurar armas ostensivamente, por exemplo. Admiramos-mos, no entanto, quando descobrimos que aproximadamente metade, são raparigas, sujeitas como descrito supra, a situações por vezes ainda mais ainda mais precárias e expostas a uma zona cinzenta de desproteção.

Raquel Matos

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A minha experiência na Bielorrússia

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December 2, 2016 | Posted in Artigos & Opiniões | By

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Por vezes é difícil traduzir para palavras tudo o que vivemos e experienciamos, eu, tal como imagino todos que fizeram algum tipo de voluntariado, vivemos uma experiência muito dificilmente explicada por palavras. Em 2015 fiz voluntariado na Bielorrússia. Começo por falar de pequenas curiosidades do país, inicialmente quando disse que ia, muitas pessoas não distinguiam a Bielorrússia da Rússia e recebia com frequência mensagens a perguntar “Como vai isso na Rússia?”. Estas confusões para quem não está familiarizo com o leste europeu, acabam por pesar sobre os bielorussos enquanto sociedade, reparei nisso porque os primeiros pedidos que recebi foi para nunca os chamar de Russos.

O mais difícil em relatar esta experiência acaba por ser a impossibilidade de fugir a realidade política que o país vive. A Bielorrússia, muitas vezes chamada “a última ditadura da Europa” tem tanto de charme como tem de restrições. Ao início acaba por nos incutir um medo a quem não tem por hábito ter uma liberdade de expressão limitada e vigiada. De repente ter cuidado com coisas que consideramos banais, como escrever no Facebook ou tirar fotos onde queremos, torna-se em algo que exige alguma cautela.

Uma das minhas preocupações era sobre como falar com as pessoas acerca do país sem ter uma posição de estereótipo. Entre muitos que “apoiavam” a ditadura, também conheci diversos jovens que tinham participado e até tinham sido presos por protestar contra o regime (Clapping Protest,2011). Lidei diariamente com jovens que me diziam que por mais que amassem o seu país, não viam lá um futuro e se tivessem escolha optavam por emigrar devido as restrições impostas pelo regime.

Receio ter dado uma visão muito sombria do país que me acolheu e recebeu tão bem. E não pretendo de forma alguma que isso reflita sobre as pessoas e a cultura em si. Porém, quando penso na minha experiência que na sua totalidade foi positiva, é difícil ignorar os choques iniciais. Pelas políticas instaladas (ainda me lembro do arrepio que senti quando me disseram que ainda existia a pena de morte), pela economia fragilizada (o país onde qualquer um é milionário, ex. €60 = 1 milhão de rublos bielorrussos) e pela presença constante militar que encontramos em Minsk. O mais curioso, é que a dada altura, damos por nós a ter um comportamento que acaba por ser sistematizado, mas que se torna indiferente, como se aquelas restrições se tornassem “normais” para mim.

Provavelmente para contar tudo o que vivi na Bielorrússia precisaria de um livro inteiro, como não o tenho, acabo por salientar dois pontos. O primeiro foi que aprendi a dar imenso valor a liberdade de expressão de forma que nunca pensei possível. O segundo é que conhecer a Bielorrússia é indispensável. Pelas pessoas, pela diversidade cultura e para os amantes da história contemporânea, conhecer a Bielorrússia é como entrar no candyland mas da história.

Nélia Catarina Neves

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Vítimas por duas vezes?

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October 31, 2016 | Posted in Artigos & Opiniões | By

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A Human Rights Watch está a acusar oficiais Nigerianos de abusarem sexualmente das vítimas do Boko Haram. Um título de notícias como este deixa-nos de sangue gelado: como assim – vítimas duas vezes?! O absoluto desrespeito e pura crueldade para com estas meninas e mulheres passa do incrível para o não-tão-surpreendente… Infelizmente, este não é um cenário novo na cena internacional: todas as semanas lemos headlines que revelam fenómenos terríveis, inacreditáveis, violentíssimos como este. Parece-nos demasiado mau para ser real, mas é. E, como sempre que lemos esses mesmos títulos ou vemos essas mesmas notícias na televisão, ficamos em choque durante alguns segundos, podemos comentar as atrocidades durante alguns minutos, mas depois continuamos a comer o jantar ou a trabalhar ou a fazer o que quer que estivéssemos a fazer antes de sabermos dos acontecimentos…

É assim que funciona a vida real no nosso Mundo. A maior parte das pessoas apercebe-se das crueldades cometidas a toda a hora mas nada faz para as interromper ou manifestar-se contra elas. Pode pôr um smile triste ou zangado no Facebook, partilhar talvez um comentário indignado no Twitter, mas nem por isso vai alterar o estado das coisas. Vemos mas nada fazemos. É um hábito; é o costume internacional. Não só dos indivíduos, como dos Estados, dos nossos representantes. E as vítimas continuam a ser vítimas; uma, duas, três vezes seguidas… sempre porque não têm quem as proteja.

É uma triste realidade. Mas só deixará de o ser quando nos levantarmos dos nossos sofás, quando falarmos mais alto e, sobretudo, quando agirmos em vez de falarmos, ou quando transpusermos as nossas ações do ecrã de um computador para as ruas lá fora. Porque aquelas vítimas podiam ser nossas irmãs, filhas, mães, tias, avós… Só que esquecemo-nos sempre de nos identificar com elas, de lhes dar valor – de as reconhecer como humanas, vítimas, inocentes, merecedoras de ajuda e de proteção.

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Disparidade Salarial em Portugal

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October 31, 2016 | Posted in Artigos & Opiniões | By

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Hoje, dia 31 de Outubro, assinala-se o Dia Nacional para a Igualdade Salarial. A diferença salarial de género diminuiu de 2013 para 2014 aqui em Portugal, mas será que isso significa que já não há desigualdade salarial entre homens e mulheres no nosso país? Nem por isso. Como este artigo do jornal Público demonstra, “Por comparação com os homens, é como se as mulheres trabalhassem 61 dias sem serem remuneradas”. Muita gente argumenta que a diferença de salários pode ser explicada por fatores lógicos como: as mulheres terem licenças de gravidez, às vezes serem menos produtivas porque estão “naquela altura do mês”, etc… O problema é que não vejo, realmente, onde está a lógica nestes argumentos. Veja-se, aliás, os países escandinavos em que a igualdade salarial já está praticamente assente e o sucesso das medidas igualitárias nota-se em todas as dimensões da vida pública – e familiar. A partilha de trabalho entre homens e mulheres deve ser igualmente remunerada, porque não há qualquer explicação lógica para fazer distinções.

No entanto, parece-me claro que, aqui em Portugal, ainda há um longo caminho a percorrer.

Carlota Houart

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Black Monday – Aborto na Polónia

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October 31, 2016 | Posted in Artigos & Opiniões | By

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No dia 3 de Outubro milhões de mulheres saíram à rua, em manifesto contra a nova proposta de lei para a total criminalização do aborto. As ruas de Varsóvia, Cracóvia, Gdansk, Wroclow e de muitas outras cidades polacas encheram-se de mulheres vestidas de preto, simbolizando o luto pelos seus direitos, com cartazes que expressavam o seu descontentamento e revolta.

Na Polónia, a lei atual apenas prevê o aborto em três situações: quando a vida da grávida estiver em perigo, quando há um risco grave de deficiência do feto ou quando a gravidez resultar de violação. O projeto de lei surgiu através de uma petição levada a cabo por cidadãos “anti-aborto”, contou com mais de 450 000 assinaturas e prevê uma pena de prisão de 2 a 5 anos para as mulheres que abortem, bem como para os médicos que as assistam. No entanto, milhares de mulheres deslocam-se anualmente aos países em redor onde o aborto é legal, como na Áustria, Alemanha ou Eslováquia.

Atualmente, o governo é liderado pelo “PIS- Law and justice” e caracteriza-se por ser um partido de extrema-direita conservadora. É um partido extremamente nacionalista e muito próximo da Igreja Católica, sendo que as políticas restritivas vão sendo cada vez mais frequentes. Estas mesmas políticas contra o aborto significam uma sentença de morte aos direitos das mulheres, à sua liberdade de escolha. Até quando vão estar os nossos direitos e o nosso corpo em mãos alheias? Até quando vão escolher por nós?

A sociedade que se diz democrática, que reconhece o direito de liberdade e igualdade dos cidadãos não pode ser a mesma sociedade que restringe e proíbe as mulheres de fazerem as suas próprias escolhas em relação ao seu próprio corpo.

Ana Miguel Gradim

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